O São João de 2026 acendeu um debate que vai além da quadrilha e do baião: a desigualdade entre os cachês pagos a artistas sertanejos e aos representantes históricos do forró nas festas juninas do Nordeste. A discussão ganhou força durante o feriado de Corpus Christi e tem como pano de fundo uma fiscalização cada vez mais rigorosa do Ministério Público da Bahia (MP-BA) sobre os gastos públicos com as celebrações.
O estopim foi o anúncio do cantor Flávio José, um dos maiores nomes do forró tradicional, de que cancelaria cerca de 15 apresentações na Bahia após divergências sobre o valor do seu cachê. O artista cobra R$ 350 mil por show em 2026, 40% a mais do que no ano anterior, e algumas prefeituras se recusaram a pagar o valor após orientação do MP-BA.
Flávio José não escondeu a indignação: "Às vésperas da maior festa de manifestação cultural do Nordeste, eu recebo a notícia que o MP da Bahia resolveu diminuir o meu cachê! Enquanto outros artistas que nada têm a ver com forró, como sertanejos, ganham rios de dinheiro", disparou em publicação no Instagram.
Os números dão respaldo à reclamação. Um levantamento baseado no portal de transparência do MP-BA, com dados de 137 prefeituras baianas, mostra que nenhum dos dez maiores cachês registrados pertence a um representante do forró tradicional.
Os valores mais altos vão para Gusttavo Lima (R$ 1,1 milhão), Wesley Safadão (R$ 1 milhão), Luan Santana, Victor e Léo e João Gomes (R$ 750 mil cada), além de Nattan, Ana Castela, Zé Neto e Cristiano, Maiara e Maraisa, Leonardo e Bruno e Marrone. Dos listados, apenas três são nordestinos, e somente João Gomes tem trajetória diretamente ligada ao forró.
O contraste fica ainda mais evidente quando se compara esses valores com os pagos a nomes como Alceu Valença, Elba Ramalho e Alcymar Monteiro, símbolos das festas juninas, que receberão até R$ 250 mil por apresentação, mais de quatro vezes menos do que os sertanejos no topo da lista.
O MP-BA defende sua atuação. Desde 2022, o órgão mantém um portal de transparência sobre os festejos juninos e, segundo ele, os custos com atrações saltaram de uma média de R$ 200 mil para cerca de R$ 700 mil em quatro anos, aumento atribuído, entre outros fatores, ao crescimento das emendas parlamentares destinadas aos eventos.
A recomendação feita aos gestores para 2026 foi de não ultrapassar os cachês de 2025 corrigidos pela inflação. O resultado, segundo o MP, foi uma economia de quase R$ 19 milhões para os cofres públicos.